Sequestradores emocionais: o perfil de quem cultiva relacionamentos abusivos

Giovanna Tavares

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Atualizado em 17/04/2017

Sequestradores emocionais

Reprodução Caso de Emilly e Marcos, no BBB, trouxe à tona discussão sobre relacionamentos abusivos

Amor, respeito, compreensão e parceria nada têm a ver com submissão e culpa. São, em essência, o oposto disso. Em relacionamentos abusivos, porém, o desequilíbrio de poder entre os parceiros é tão grande que apenas um dos lados se responsabiliza por atritos, frustrações e desentendimentos. A culpa é da vítima, sempre. Não há argumentação possível.

Apesar de não deixar marcas visíveis, o abuso emocional é tão devastador como outras formas de violência, inclusive a física. Quem vive um relacionamento do tipo pode desenvolver síndromes de pânico e ansiedade, medo de se relacionar, depressão e outros transtornos.

Apesar de tantos riscos e desvantagens, não é tão simples perceber-se parte de uma dinâmica tão instável e triste. De acordo com a psicóloga Silvia Malamud, autora do livro “Sequestradores de Almas”, o abusador ganha força e controle no decorrer do relacionamento, enquanto a vítima perde todas as referências de si mesma.

“Pessoas envolvidas com esses predadores vão perdendo, gradativamente, memória e referência do que um dia foram. Os abusadores as desqualificam com o tempo, distorcendo fatos, praticando gaslighting (saiba mais aqui) e colocando as vítimas em dúvida de suas próprias memórias”, explica.

Enquanto um pisa, outro sofre

Quem abusa emocionalmente precisa de “relacionamentos-gangorra”. Segundo Marina Dias, psicóloga e terapeuta do Instituto do Casal, são pessoas que só conseguem se relacionar com os demais por meio da desqualificação, ou seja, deixando os outros para baixo.

“São pessoas muito inseguras, com a autoestima baixa. O jeito que encontram de suprir essa lacuna é por meio do abuso, deixando o parceiro cada vez mais frágil e igualmente inseguro. Só assim eles têm total controle do relacionamento”, observa a especialista.

Para ela, o abusador prefere “cortar as pernas” do parceiro a simplesmente correr o risco de ser abandonado, ideia que beira o insuportável. Por isso, as interações do casal se tornam cada vez mais raras, de modo que a vítima se sinta cada vez mais fora de contexto e sem quaisquer outros exemplos, positivos ou neutros, de amores e amizades.

É este isolamento, aliado à perda de referência e confiança, que dificulta a conscientização de relacionamentos abusivos. Do lado de baixo da gangorra, a vítima só sabe se desculpar, ceder, concordar e silenciar frente a tantas críticas e desqualificações, como se fosse a grande responsável por todas as brigas do casal. Afinal, quem mais poderia teria paciência para amá-la, senão o abusador?

 

Dependência emocional

O mecanismo de sedução e controle por trás de relacionamentos abusivos não se dá ao acaso, por conta de uma ou outra ofensa de quem agride. Silvia Malamud afirma que relações amorosas deste tipo também se guiam por forte dependência emocional, originando uma relação de simbiose entre vítima e abusador.

Ele é quem dá tudo: segurança, amor, perdão, carinho, proteção e orientação. Sem esse “norte”, tudo parece perder sentido e significado, como se a individualidade não tivesse qualquer importância.

“A vida da vítima vai se delineando numa falsa segurança, porque depende do outro para existir. O ‘sequestrador’, então, aproveita para subtrair a vítima de todas suas relações adultas com o mundo, que são lembranças do que ela já vivenciou e conquistou, apesar das carências. Nesse sequestro emocional, as conquistas individuais de quem está fragilizado perdem a validade”, diz a especialista.

Busque apoio

Em um relacionamento equilibrado, ninguém está sempre certo ou errado. Saber ceder e reconhecer os próprios erros, em igual proporção, faz parte de um acordo justo e respeitoso entre os casais.

Quando as discussões beneficiam apenas um dos lados e vêm acompanhadas de tanto medo, insegurança e depreciação, é preciso desconfiar e analisar todos os sinais de alerta. O abuso também mora detalhes, ainda que sutis.

Por isso, o caminho é buscar ajuda e suporte emocional para quebrar esse ciclo de agressões, com terapia e muito trabalho de autoconhecimento. O apoio de amigos e familiares também é fundamental na recuperação de referências individuais, autoestima e confiança. 

Amor, quando dói, nunca é bom.

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