Nudez masculina com modelos voluntários vira febre entre jovens fotógrafos e faz sucesso nas redes sociais

Projetos viram livro, fanzine, peça teatral e propõem a desmistificação da nudez como tabu

Redação

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Atualizado em 17/10/2014

Toda Nudez Será Castigada. A frase, título da peça teatral de Nelson Rodrigues escrita em 1965, foi ultrapassada. O momento atual não castiga os pelados, pelo contrário – comemora o desapego às roupas.

E assim, cada vez mais as redes sociais – termômetro social e cultural – assistem às imagens de pessoas posando nuas. Com um diferencial: os modelos costumam ser voluntários, posam porque querem, e de graça!

E mais um diferencial: a nudez masculina ganha força, destruindo velhos clichês como o de que somente a nudez feminina seria digna de apreciação – ou descartando o machismo da cultura brasileira, em que homem não fica nu; quem fica é a mulher, para deleite dos homens.

Claro que tal atitude “de vanguarda” teria de vir de um setor que, em meio a bombardeios políticos e preconceitos internos, continua lançando modas e tendências: o universo gay.

Alguns dos projetos fotográficos eróticos mais interessantes do momento trazem esse “verniz LGBT”. Virgula conversou com alguns dos fotógrafos responsáveis por esse “boom” de homens pelados.

“Eu não sou fotógrafo. Sou ator, performer, e tenho uma câmera. Minha pesquisa é muito mais nas relações, no ato da expressão da sexualidade de ser retratado nu do que na imagem em si”, diz André Medeiros Martins, criador do projeto Flexões, que virou livro. Clicando não apenas homens, mas também mulheres, pessoas de idades, raças, credos e estilos variados, AMM virou referência para a tal nudez que se expõe no Facebook. A ponto de ele próprio virar modelo, realizando auto-retratos onde também fica nu.

Sobre ter virado seu próprio “muso”, André explica os motivos: “Carência, egocentrismo e redes sociais que possibilitam a auto promoção diária. E sou excessivamente compulsivo. Quando não existe alguém para fotografar, me fotografo. Gosto muito de me rever em várias situações e registrar o tempo passando no meu corpo e na minha pele”.

Outro criador que virou criatura é Rafael Guerche, criador do projeto Meninos Também Amam, poema/manifesto cênico que engloba ensaios fotográficos e espetáculo teatral. Rafael dirige as imagens e posa para elas – quem clica é Felipe Stucchi.

“Escrevi um poema para usar na cena de conclusão do curso de direção teatral, acabei postando no Facebook e para minha surpresa foi bastante compartilhado e logo vieram os pedidos de publicação em jornal e revista eletrônicos”, conta Rafael. “A ideia de chamar meninos pra fazer fotos veio do meu contato com tumblrs que também tratavam da temática homoerótica, fui descobrindo a homofotografia e percebendo que me seria um material potente junto ao poema e a cena”.

“O meu objetivo é fazer desta cena uma manifesto contra todo e qualquer tipo de ódio homofóbico. Queremos falar do amor masculino, do amor entre meninos e do quanto isso é absolutamente natural e justo. O objetivo maior é o amor”, diz Rafael.

Outros fotógrafos buscam simplesmente retratar a atual geração. É o caso de Gianfranco Briceño. “Queria registrar essa geração de beleza masculina que eu vejo na rua, na noite, na padaria, da forma mais natural possível. Comecei chamando amigos ou conhecidos para fazer fotos inéditas para o projeto”. Assim nasceu o Snaps, fanzine que já está na segunda edição.

Gian viabilizou o projeto através do Catarse, e conseguiu resultados espantosos. “É muito incrível ver o projeto ser viabilizado com a ajuda de muita gente que acredita nele, e quer ver ele acontecer, receber o fanzine em casa, impresso e tal. O que mostra também que tem um vazio enorme de publicações do tipo no Brasil. Eu ainda não sei se vou continuar no esquema crowdfunding com a publicação, porque dá muito trabalho e sou eu que faço tudo sozinho, mas vou pensar isso mais pra frente”, diz ele.

E não faltam modelos querendo tirar a roupa para as câmeras. Alguns até decidem se despir porque se sentem realizando um fetiche. “Uma das coisas que fazia era uma espécie de registro de cenas ou situações que as pessoas achavam excitantes. Essas cenas eram criadas e os registros que eu fazia eram colocados num álbum virtual, com um código de acesso privado, que era repassado ao fotografado. Por essa época eu também explorava lugares inusitados com um amigo que também fotografava. Em alguns desses lugares eu fiz fotos dele pelado, e a gente achava aquilo divertido. Dessas fotos veio a vontade de fazer daquela diversão alguma coisa que não acontecesse somente pela adrenalina, mas também de criar alguma coisa bonita dessas saídas a lugares estranhos”, conta Shaffer, que criou o projeto Light Trapping, cujas marcas registradas são: homens nus, locais públicos, madrugada.

“No início os fotografados eram amigos e conhecidos, ou amigos e conhecidos deles. Depois passei a usar perfis em sites pra buscar pessoas pra fotografar”, relata Shaffer. “De uns tempos pra cá, com o surgimento dos apps como Grindr, Scruff e Hornet, veio a idéia de subverter o objetivo desses aplicativos: em vez de gerar algum tipo de contato sexual rápido e descartável, usá-los como ponto de partida pra uma série de conversas em que o fotografado se abrisse pra mim, contasse intimidades e aspectos pessoais, que eu depois utilizo de alguma forma pra criar uma imagem”.

Como se vê, o ato de se despir em fotos pode ter muitas origens. Para uns é uma atitude até política, para outros um desbloqueio psicológico, para outros mero exibicionismo. Apenas uma moda passageira?

“Eu não acho que seja uma tendencia do momento, as pessoas gostam de se mostrar se elas se sentem seguras com o seu corpo”, opina Gian. “Talvez hoje em dia com uma câmera na mão de todo mundo e um tanto de rede social para publicar as fotos, isso tenha ficado mais evidente, haja visto o próprio fenomeno do selfie. Mas se voltarmos no tempo, na historia da pintura, antes mesmo da fotografia, as pessoas sempre procuravam se autoretratar”.

Mas ao longo dos séculos a nudez acabou virando tema tabu. “O erótico sempre foi tão reprimido, o corpo nu masculino sempre esteve tão escondido, que me parece aos poucos existir um movimento, não de libertação do corpo ainda, mas de uma possível manifestação de sua existência erótica e natural”, diz Rafael.

“Acho a nudez para o sistema que vivemos assustadora. O nosso corpo diz coisas que a nossa cabeça não quer escutar e é veementemente contra. O nosso órgão escondido é um bicho que tem que ser domado diariamente. Por isso existe esta patrulha contra a nudez”, diz André. “Uma vez um amigo falou que gostava do meu trabalho e tal mas que não gostava de todo dia abrir o Facebook e dar de cara com minha bunda. E ela até que é bonita. Mas procuramos diariamente acatar a nossa mente e ela diz que estímulos relacionados ao sexo tem que pertencer a caixas escondidas e nunca explícitas”.

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