50 anos de Brasília: 10 artistas que moldaram o som da cidade

Fonte: reproducao

No aniversário de 50 anos de Brasília, o Virgula faz uma homenagem ao groove candango. Seja rock, hip hop, MPB ou eletrônico, Brasília foi responsável por muito som bom em nossas vidas.

Eis aqui dez artistas fundamentais do Distrito Federal, em ordem mais ou menos cronológica, comentados pelo nosso time de jornalistas mais um convidado de honra, Alexandre Matias, editor do caderno Link, do Estado de S. Paulo, e brasiliense da gema. Muitos vão chiar pela falta de alguns nomes, mas a lista é baseada em opiniões pessoais, só queríamos por 10 e a gente queria incluir gêneros diferentes.

(Para ouvir uma amostra do som de cada artista, clique no seu nome)

 

LEGIÃO URBANA por Alexandre Matias (editor do Link, do Estadão)

Se o rock dos anos 80 foi a oxigenação atrasada que nosso pop pedia desde os tempos do tropicalismo, para Brasília - e graças ao Legião Urbana - foi o momento da criação. Antes do Legião não havia nada na capital, basicamente porque Renato Russo bolou toda a história de sua carreira calcado na mitologia clássica do rock. Foi a transformação do Legião Urbana em porta-voz de uma cidade que não era vista como uma cidade que fez com que Brasília nascesse culturalmente, tanto para o resto do Brasil quanto para si mesma.

E de uma hora pra outra bandas surgiram feito mato - no final dos anos 80 eram mais de duas centenas. O Legião foi a injeção de auto-estima que fez com gerações seguintes pudessem existir - dos contemporâneos (Capital Inicial, Plebe Rude, Finnis Africae, Detrito Federal, Arte no Escuro, 5 Generais, Beta Pictoris) à safra dos anos 90 (DFC, Raimundos, Low Dream, Little Quail, Oz, Câmbio Negro, Maskavo Roots) passando pela geração Senhor F / Porão do Rock (que inclui nomes tão diferentes quanto Natiruts, Prot(o) e Móveis Coloniais de Acaju), todos foram diretamente influenciados pelo indie popular do grupo de Renato Russo. De Gabriel Thomaz ao Nego Moçambique, ninguém saiu ileso.

E posso falar: nasci em Brasília, o primeiro show que fui na vida foi o lançamento do Dois no Ginásio Nilson Nelson, fui ao fatídico show no estádio Mané Garrincha e entrevistei Renato Russo no ano em que comecei no jornalismo. Vi tudo isso acontecendo na minha frente.

PLEBE RUDE por Camilo Rocha (editor do Virgula Música)

Eles não tiveram a mesma popularidade do Legião, nem a longevidade do Capital Inicial, mas o Plebe Rude é uma peça fundamental para entender o rock que surgiu nos anos 80 em Brasília. Mais underground e mais barulhento do que os outros dois, a Plebe tinha também uma postura bem mais panfletária.

Dos três, era o que mais mantinha viva a conexão sonora com suas origens punk. As letras militantes da banda iam direto ao ponto: enquanto algumas eram típicas do tempo da ditadura militar ("Tropas de choque, PM's armados mantêm o povo no seu lugar" de "Proteção") outras continuam atuais ("Com tanta riqueza por aí/Onde é que está/Cadê sua fração" em Até Quando Esperar).

Liderada por Philippe Seabra e André Jung, a Plebe lançou cinco álbuns de estúdio, dois ao vivo, uma caixa e duas coletâneas. Segue tocando, assim como o Brasil segue fornecendo assunto para letras indignadas.

 

OS RAIMUNDOS por Jean Felipe (repórter do Virgula Música)

Os Raimundos praticamente ensinaram ao Brasil o que era o hardcore. Claro, já havia bandas que tocavam o estilo há anos (vide Ratos de Porão, Olho Seco e D.F.C. por exemplo), mas foi o quarteto brasilense que tirou o gênero do underground e o colocou nas rádios do Brasil.

Os Raimundos, que surgiram em Brasília no começo dos anos 90, foram uma das maiores bandas de rock que o Brasil já teve. Formado por Digão, Canisso, Fred e Rodolfo, quatro fãs de Ramones e punk “das antiga”, o grupo foi fenômeno de vendas e lotou estádios no seu auge. São incontáveis os seus clássicos: Puteiro em João Pessoa, Selim, Eu Quero é Ver o Oco, I Saw You Saying, só para citar alguns.

Mesmo que o grupo hoje se encontre desfalcado de sua formação clássica, que não lote shows e que tenha Tico Santa Cruz como vocalista, o Raimundos cumpriu a sua verdadeira missão: disseminar a música pesada para milhares de brasileiros.

LITTLE QUAIL por Denis Moreira (editor do Virgula Diversão)

No começo dos anos 90, mesma época em que o Raimundos explodiu no rock nacional com sua genial mistura de forró e hardcore, outra banda de Brasília e tão boa quanto eles surgiu, mas infelizmente não teve a mesma sorte: o Little Quail and the Mad Birds.

Formado por Gabriel Thomas (voz e guitarra, hoje do Autoramas), Zé Ovo (baixo) e o mão-pesada Bacalhau (atual baterista do Ultraje a Rigor), o grupo investia em uma versão pesadona do rockabilly, misturando-o com punk, pop e poesia adolescente em estado bruto – as letras eram irônicas e engraçadas, mas sem palavrões ou grosserias. E ainda teve a cara-de-pau de fazer um cover rock/zoeira de Samba do Arnesto, o velho clássico de Adoniran Barbosa.

Em poucos anos de vida, o Little Quail lançou os ótimos CDs Lírou Quêil en de Méd Bãrds (1994) e A Primeira Vez Que Você Me Beijou (1996) – se você nunca os ouviu, corra atrás agora! – e encerrou atividades, deixando órfã uma legião de fãs em todo o Brasil. Entre eles, este jornalista e outros tantos, para quem os brasilienses são um dos grupos mais injustiçados da história do rock nacional.




NATIRUTS por Luiz Filipe Tavares (repórter do Virgula Música)


No Brasil, o reggae sempre foi mais pra baião do que pra ska e mais pra cangaçeiro do que pra rastafari, exceto por poucos e ótimos exemplos como Edson Gomes, Gilberto Gil e outros.

Quando o Natiruts (antes Nativus) apareceu em 1996, veio soprar de volta os ventos jamaicanos para o cenário brasileiro do reggae, que já andava carente depois da desistência do Skank e do Cidade Negra em manter o estilo mais tradicional, mais "roots".

Sem eles, o reggae já teria saído das paradas do país há muito mais tempo.

CÂMBIO NEGRO por Carol Patrocínio (repórter do Virgula Famosos)

Câmbio Negro mudou o eixo do rap brasileiro. Focado em São Paulo, o rap teve seu sotaque, gírias e realidade mudados em 1990, quando o grupo da Ceilândia - periferia de Brasília - começou os trabalhos que culminariam no CD Sub Raça, um marco na cena hip hop nacional, em julho de 1993.

O disco levou o rap brazuca para viajar. Japão, Espanha e Portugal tiveram acesso a produção brasileira e gostaram do que ouviram. O grupo seguiu com o disco Diário de um Feto (1996), já tendo incorporado um baixista, um guitarrista e um baterista ao grupo. Em 1999 foi lançado o terceiro eúltimo trabalho do Câmbio Negro, com título homônimo.

A importância do Câmbio Negro se dá não apenas pela abertura do mercado em Brasília, mas por ter tido coragem e audácia de tocar com uma banda quando o rap nacional ainda era apenas MC e DJ, samplear AC-DC e Gerson King Combo sem ter medo dos ouvidos menos preparados e tornar o Distrito Federal um lugar diferente do que apenas a capital política do país. Câmbio Negro tornou nacional a discussão sobre opressão, preconceito racial e segregação social.

ZÉLIA DUNCAN por Marina Alves (repórter do Virgula Lifestyle)

Zélia Duncan, para Brasília, era Zélia Cristina. Apesar de carioca, a cantora carrega em sua carreira uma sementinha da cidade que hoje completa 50 anos. Foi na Sala Funarte – onde novos artistas ganhavam espaço para se apresentar – que, segundo a própria Zélia, recebeu “uma opção de vida definitiva” e um destaque especial graças a sua voz rouca.

Das terras candangas decolou para o resto do Brasil: depois e se apresentar no Teatro Municipal de Brasília abrindo para Luiz Melodia, Zélia foi selecionada para representar a cidade no Projeto Pixinguinha por vários estados e não parou até se consolidar, atualmente, como uma das mais respeitadas artistas da MPB.

E sempre é bom lembrar que muito poucas teriam condições de substituir Rita Lee nos Mutantes e fazer bonito. Zelia fez.

LOW DREAM por Stefanie Gaspar (repórter do Virgula Música)

O trio Low Dream, formado por Giulliano, Giovanni e Samuel, surgiu em 1991, inspirado no som de grupos como My Bloody Valentine. Os músicos estouraram após o lançamento da demo Dreamland, um aperitivo antes do lançamento do primeiro álbum oficial da banda, intitulado Between My Dreams and the Real Things.

A sonoridade da banda fazia sucesso, e logo se tornou bem conhecida fora do circuito brasiliense - mas a festa durou pouco, já que o grupo terminou logo após o lançamento de seu segundo e último CD, Reaching For Balloons. Giulliano Fernandes, entretanto, continuou na ativa, investindo nas picapes sob o pseudônimo de DJ Hopper.

 
 
MÓVEIS COLONIAIS DE ACAJU por Tiago Agostini (editor de home do Virgula)

O Móveis Coloniais de Acaju construiu sua reputação em cima dos palcos. Formado em 1998, o grupo sabe fazer um show divertido, participativo e empolgante como poucos artistas no Brasil, graças à energia e disposição de seus integrantes ao vivo e, sem dúvida, ao carisma e simpatia do vocalista Andre Gonzalez.

Fã confesso de Wilson Simonal, André leva para o Móveis boa parte dos truques de seu ídolo, como a famosa divisão de vozes que o cantor promovia em Meu Limão, Meu Limoeiro. A mistura suingada de ska e ritmos do leste europeu do primeiro disco, Idem, lançado em 2005, contribuiu significativamente para as performances. Faltava ao Móveis, no entanto,um grande disco de canções como cartão de visitas.

Para isso, recrutaram o produtor Carlos Eduardo Miranda, importante figura para o rock de Brasília ao produzir o Little Quail e o Raimundos. Junto com ele, o Móveis concebeu e gravou C_mpl_te, lançado ano passado e que foi figurinha fácil em todas as listas de melhores de 2009. Você confere a performance contagiante do grupo no vídeo abaixo, registrado no show de gravação de um DVD para o Canal Brasil, que será lançado em breve.

NEGO MOÇAMBIQUE por Vitor Ângelo (editor de Virgula Famosos)

Se existe uma tradução musical da ginga das curvas arquitetônicas de Oscar Niemeyer, ela seria feita por Nego Moçambique.

O produtor musical de Brasília tem dois álbuns lançados, Nego Moçambique, de 2003, e La Rumba Computer, de 2007, ambos uma bela síntese da fusão dos ritmos africanos e brasileiros com a batida eletrônica, sem cair em nenhum folclore ou regionalismo em um trabalho extremamente autoral.

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