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Rapper Afro-X fala de seu relacionamento com Simony e afirma querer “destruir o sistema”

Virgula

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Atualizado em 10/05/2009

“Certo dia no pavilhão 8 do Carandiru um piolho me contou uma parábola que mudou minha vida”. Assim começa Ex-157, autobiografia do rapper Afro-X, que se denomina como Rapper de Cristo e hoje tenta pregar a paz e a redenção por meio de sua história de vida. Christian de Souza Augusto nasceu no subúrbio de São Bernardo do Campo, como “um retrato de vários jovens que estão espalhados pelas periferias do Brasil e que vêm morrendo precocemente no caos da violência, no álcool, nas drogas e na criminalidade”. Preso por assalto a mão-armada, foi condenado a 14 anos de prisão, sete dos quais passou em regime fechado no presídio do Carandiru. Foi lá que conheceu o rap e a cantora Simony, com quem teve dois filhos e hoje tem um “relacionamento tranqüilo, saudável, na amizade”.

O rapper fala sobre sua história em um tom interminável de redenção, conquista e superação. Muitas das frases que usa durante a conversa são idênticas ao de seu livro, e seu discurso é dominado pelo temor a Deus e a crença em um destino superior e previamente traçado, que permitiu que “exista chance de sair do crime sem a ajuda do Estado”. Em entrevista, Afro-X contou ao Virgula sobre sua conversão, seus projetos musicais, anunciou que seu livro é um “plano de destruição do sistema” e não hesitou em falar que “a religião evangélica é a mais verdadeira de todas”.

Virgula: Como surgiu a idéia de escrever sua autobiografia?

Afro-X: Resolvi escrever o livro por tudo que presenciei na prisão, e para dar uma esperança aos jovens que estão no caminho do crime. Lá resgatei meus valores. Eu tinha esquecido de Deus, ia para a balada toda a noite, me envolvia com as pessoas erradas… lá percebi que havia uma redenção possível, e é isso que quero mostrar para os jovens de hoje. Quero mostrar que não precisa do Estado para sair do crime, e que é possível destruir esse sistema e ir além dele.

Virgula: O que aconteceu no Carandiru que mais te marcou durante os sete anos de prisão?

Afro-X: Assim que entrei lá, presenciei um assassinato horrendo. E banal, sabe, o cara morreu por uma briga qualquer. Mas o que me assustou é que os presos não tinham reação, eles simplesmente olhavam como uma coisa corriqueira. Arrastaram o cara morto pelos corredores da prisão e ninguém ficava chocado. Daí fiquei estarrecido.

Virgula: Você não achou perigoso contar as histórias que aconteceram lá no Carandiru?

Afro-X: Ah, perigoso sempre é, mas eu tenho a proteção do Senhor comigo. Além disso, tomei todo o cuidado de colocar pseudônimos e deixar de fora algumas coisas.

Virgula: Como o que?

Afro-X: Existem coisas que acontecem na prisão que ficam na prisão. Que não podem sair de lá.

Virgula: Como foi o processo de criação do livro?

Afro-X: Muito difícil, viu. Eu escrevi 80% do livro na prisão, escrevendo cerca de 12 horas por dia por três meses. Mas daí tive um bloqueio criativo e, quando saí da prisão, não conseguia mais escrever. A inspiração só veio quando me tornei evangélico. Daí tudo se arrumou e consegui terminar o livro.

Virgula: Então, ao contrário da maioria dos presidiários, você não se converteu dentro da prisão?

Afro-X: Não, só depois eu percebi a importância de caminhar com Deus. Existem dois caminhos para quem está na prisão: se tornar um PHD do crime, ou abraçar Deus. A religião evangélica é a mais séria, porque não dá para você ser um evangélico não-praticante. Ou você é evangélico e abraça a causa, ou simplesmente não é. Ou é Deus ou é o demônio, não existe meio termo. E vou te dizer uma coisa: eu aprendi que tudo que você faz de bom, depois você colhe amor. E essa não é a lei do Afro-X, é a lei de Deus. Não estaria vivo se não fosse por ele.

Virgula: Como era para você, como rapper, fazer música na prisão? Tinha espaço para isso?

Afro-X: Nenhum espaço. Eu tinha o 590-E, meu projeto de rap, que só ia pra frente pelo esforço mesmo. Porque a intenção é que o preso não tenha nenhum tipo de contato cultural, que ele fique lá jogado como um bicho. Mas, graças a Deus, o juiz Otávio de Machado Filho percebeu que nosso projeto de música era sério e nos deixou inclusive sair da prisão para gravar.

Virgula: Além de conseguir sair da prisão para gravar um álbum, você também conseguiu ir até Nova Iorque durante o período da sua condicional para gravar. Como isso foi possível?

Afro-X: Deus fez possível. Graças a ele, consegui permissão da Polícia Federal, do Ministério Público e do pessoal da Imigração para ir até Nova Iorque gravar o média-metragem O Regenerado, produzido pelo Paulo Sacramento da Olhos de Cão. Foi maravilhoso ter tido essa oportunidade.

Virgula: E quais são seus projetos atuais de música?

Afro-X: Agora estou em uma fase mais experimental, sabe? Estou misturando rap com música clássica. Eu sempre tive aversão à música clássica, mas daí conheci a Orquestra Guri e adorei. Gravei com eles três músicas. A idéia é, além de juntar o rap e a música clássica, fazer um projeto de inclusão social pela música.

Virgula: Você ficou famoso na mídia pelo seu casamento com a Simony. Hoje, vocês estão separados e com dos filhos. Como foi esse relacionamento?

Afro-X (recuando um pouco e menos à vontade): Olha, existe uma distorção muito grande aí. Meu grupo, o 509-E, concorreu ao VMB em 2000, apareceu na revista Newsweek e já tinha uma boa exposição na mídia alternativa. Daí, quando eu comecei a me relacionar com a Simony, deu a impressão que peguei carona no sucesso dela, o que é mentira. Ela foi importante porque mostrou à sociedade que rapper pode ter família, e que as pessoas ainda olham com cara feia para um negro que fica com uma branca. Foi um tapa na cara da sociedade.

Virgula: Você pretende continuar escrevendo?

Afro-X Sim, tenho dois projetos: um livro chamado Ritmo e Poesia ou Revolução Através das Palavras e um outro chamado Você já Ouviu Falá dos Zóio Azul?, que vai ser a história de um menino da periferia.

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