“Você está doente?”: o que ouvem 6 mulheres que rasparam o cabelo

Giovanna Tavares

Por

Atualizado em 26/01/2016

“Por que você cortou?”

“Mas seu cabelo era tão bonito!”

“Ainda bem que cresce, né?”

Para uma mulher de cabelos compridos, qualquer pequena transformação é sinônimo de coragem, destemor e bravura, como se passar a tesoura representasse um grande e doloroso sacrifício. Sim, estamos falando apenas de cabelos, mas que no fim das contas… Não são apenas cabelos. Mais para o fundo, eles são a representação de um ideal de beleza feminino que carregamos há muitas e muitas gerações, mas que começa a ser questionado e subvertido por bravas e corajosas mulheres de cabelos raspados, que descobriram na raiz dos fios o verdadeiro sentido de ser feminina: amar a si mesma, com ou sem molduras capilares.

Em alguns casos, a mudança caminha em passos curtos e discretos. Primeiro, vem o corte na altura dos ombros; em seguida, um cabelo curtinho, que não dá tanto trabalho. Por fim, a máquina zero – ou de numerações que variam pouco, quase nada, do nulo máximo. Em outros, porém, a radicalização do visual ocorre da noite para o dia, sem medo de ser feliz. Independentemente do método escolhido, raspar o cabelo tem um significado ainda mais abrangente: liberdade.

Conversamos com seis meninas que adotaram esse corte de cabelo para entender qual é a piração da sociedade, de um modo geral, com os cabelos compridos e por que existe beleza e ideologia nas cabeças quase nuas. Saca só!

Isis Maria – “Você está doente?”

A vontade de raspar os fios não é coisa recente na vida de Isis. Até compreender a própria identidade e se reconhecer como negra, ela aprendera a rejeitar a natureza dos fios e ignorar a beleza dos cachos que nasciam crespos. Por isso, quando pequena, Isis tinha vontade de ter os cabelos raspados, por achá-los feios. Na sua primeira gestação, porém, o cabelo acabou ficando em segundo plano.

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“Percebi que era bem trabalhoso cuidar de uma criança e do cabelo, então resolvi raspar. Desse jeito, meu cabelo foi crescendo junto com o meu filho. A sensação era gostosa, não precisar lavar, pentear, hidratar… Me empoderei com aquilo, da mesma maneira quando deixei o meu cabelo voltar ao natural. Apesar dos muitos olhares, me sentia bem”, lembra ela.

Por um lado, a decisão de Isis pode inspirar outras mulheres, que também se sentiam inseguras e com vontade de raspar o cabelo, mas os comentários negativos não passaram despercebidos por ela. “Muitas pessoas me olhavam torto, outras perguntavam se eu estava doente. Era como se eu só pudesse raspar o cabelo porque eles estava caindo, não porque eu tinha vontade”.

Benjamin, filho de Isis, tem os cabelos loiros e crespos. Para ela, mais do que o desejo de ter um cabelo livre de estereótipos, raspar é uma forma de ensinar ao pequeno algumas coisas sobre liberdade, aceitação e respeito à própria beleza e natureza.

12557251_1703299639947316_2009583348_oJoice Melo – “Você mudou de lado?”

A relação entre feminilidade, sexualidade e cabelos é mais profunda do que imaginamos. Por isso, o ideal da mulher perfeita e feminina é caracterizado pelos cabelos compridos. Joice Melo decidiu, há menos de uma semana, quebrar esse estereótipo e reverter o preconceito dos cabelos raspados. E é claro que essa nova resolução veio acompanhada de olhares tortos e comentários preconceituosos.

Ela levou 15 minutos para raspar a cabeça no salão e ser questionada quanto à própria sexualidade e alertada de que, com aquele novo corte, não seria possível encontrar um namorado.

“No primeiro e segundo dias, estranhei. Algumas pessoas falaram para eu usar brincão e batom, e eu não sou muito disso, o que me deixou irritada. Por que até isso tem que ser mais feminino? Por que uma mulher tem que usar “coisas de mulher” e parecer com o ideal de uma? Fiquei um pouco mal com isso, chorei, mas hoje tô super confiante. Amo o vento na minha cabeça, a sensação de leveza e me sinto mais bonita”, conta Joice.

Em compensação, Juan, seu filho de 5 anos, adorou o novo corte da mãe e até sugeriu que ela pinte os cabelos, numa próxima transformação. “Acho que raspar o cabelo é ter liberdade sobre as próprias escolhas. É fazer o que você tem vontade, mesmo sabendo que existirá uma consequência nesse ato, como os olhares e comentários preconceituosos. Tudo isso por causa da nossa sociedade que acredita que toda mulher precisa ter cabelão”, critica.

Daniele Minami – “É bonito, mas precisa ter um rosto incrível, né?”

Não basta ter vontade de raspar os cabelos, não. É preciso ser feminina, claro, e atender a algumas especificações técnicas que resultam no chamado “rosto incrível”. Isso foi o que Daniele ouviu depois de considerar um novo corte – nada conservador ou tradicional. A iniciativa ganhou força em novembro de 2015, quando ela compreendeu que precisava mudar, de dentro pra fora e dos pés à cabeça.

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“Eu morria de vontade, mas sempre estive cercada de pessoas me desencorajando, então deixava para depois. Resolvi raspar porque estava e estou num momento para me encontrar e apenas fazer o que quero e o que gosto. Foi um marco de quando resolvi me amar e fazer as coisas da maneira que acredito”, explica Daniele. De lá para cá, por incrível que pareça, nenhum arrependimento ou vontade de voltar atrás.

“Nunca tinha me sentido tão bonita com um corte de cabelo. Fiquei feliz de olhar no espelho e me sentir linda mesmo de cabeça raspada, feminina e fora dos padrões. Olhei no espelho e me vi de verdade. O cabelo raspado me traz mil facilidades, como a economia de xampu, o tempo que levo para me arrumar, fim da chapinha e do secador… Mas o que mais senti de incrível, mesmo, foi a diminuição de cantadas cretinas no meio da rua”.

No final, a balança de Daniele pende mais para elogios do que para críticas, como tudo deve ser. Arriscar e se libertar das cobranças e dos palpites alheios, para ela, é algo que transcende cortes de cabelo e transformam o nosso jeito de encarar a vida, para sempre.

Carol Patrocínio – “Que ideia de jerico”

Lésbica, moderna demais, doente, corajosa… Alguns olhares, às vezes, falam mais alto que qualquer comentário mal-educado. É assim que Carol Patrocínio se sente desde que desencanou dos cabelos cacheados para sentir a brisa em contato com o couro cabeludo, sem qualquer resistência. O melhor jeito de definir essa experiência, até agora, é simples e direto. “Tem sido uma delícia!”, contou Carol.

“Tem a ver com o entendimento de quem eu sou, do que é ser feminina para mim. Sempre ligam o feminino a cabelo longo, e cabelo longo é cabelo liso, porque cabelo enrolado cresce para cima, não para baixo. E tudo isso diz respeito a uma realidade muito distante da nossa, da mulher brasileira padrão. A gente tem cabelo enrolado, seja crespo ou cacheado, e tem nossa feminilidade questionada o tempo todo. Então, é um momento em que estou olhando para mim como eu sou, 100% eu. Sem nada além do meu rosto, meu corpo e minhas atitudes para ser feminina”, esclarece.

Apesar de nunca ter sido confrontada diretamente, Carol sente que as pessoas se “surpreendem” com o seu jeito doce e calmo, na hora de falar, já que uma mulher de cabelos raspados carrega o estereótipo oposto. Faz sentido? Logicamente, não. Mas na prática, nada disso faz. Se ainda rola uma insegurança sobre assumir a cabeça raspada ou não, Carol dá a letra: saiba se você está verdadeiramente pronta para segurar a onda.

“O mais importante é saber se você tá bem com você mesma ao ponto de ignorar olhares e comentários. Você tem que se amar um monte e curtir sua beleza, entender que ela vai além da capa da revista. Isso muda tudo na vida”, aconselha ela.

12607338_10201341127607862_268131386_nNic Duarte – “Você não deveria usar calça, já que tem cabelo de homem”

Nic já tinha os cabelos curtos, mas há algum tempo ensaiava um corte mais radical, que traduzisse essencialmente essa sua vontade de romper com tradicionalismos e convenções sociais. “A vontade de raspar o cabelo surgiu junto com o processo de aceitação com o meu peso. Eu sentia vontade de ter uma aparência mais livre, mais fora dos padrões, mais desafiadora. Eu queria me distanciar de uma imagem tradicional, então foi um processo muito libertador. Foi muito emotivo também, porque eu fui me encontrando, me enxergando melhor, e fazia muito tempo que eu não me sentia assim”, contou ela.

Dentro de casa, zero preconceito. Nic sentiu o apoio da família, ainda que com uma certa ressalva, no início. O preconceito verdadeiro vem das ruas, quando as cantadas foram substituídas por comentários absurdos em relação à sua aparência. Chegaram a sugerir que ela não usasse mais calças, para tentar parecer um pouco mais feminina. Ainda assim, a decisão dela serviu de inspiração a inúmeras outras mulheres que também precisavam se encontrar em um estilo fora dos padrões – inclusive, Carol Patrocíno, amiga de Nic.

“Recebi mensagens incríveis quando raspei e, logo depois, algumas amigas acabaram raspando o cabelo também, enquanto outras se libertaram esteticamente de alguma outra forma. A ideia não era essa, mas acho que acabei plantando uma sementinha de libertação em quem está ao meu redor. Para mim, raspar o cabelo representa a minha liberdade como mulher. Eu não preciso ser magra para ser bonita, eu não preciso ser delicada e eu não preciso ter cabelo. Quem determina os meus padrões de beleza e feminilidade sou eu”, ressalta.

Juliana Trevisan – “Você é louca por ter essa coragem”

Juliana sentia que, quando tinha os cabelos curtos e coloridos de azul, as pessoas se aproximavam com mais frequência e curiosidade para elogiar o corte. Hoje, as coisas são um pouco diferentes, já que ela optara por raspar os fios e abandonar a “síndrome de Sansão”, como gosta de dizer. Existe um pouco de receio? Sim, e ela enxerga isso de um jeito positivo.

“A melhor parte é que o número de cantadas na rua diminuiu significativamente, e tô adorando isso. Também pude notar como a feminilidade e a noção do que deve ou não ser considerado “feminino” estão atrelados à estética. Que ser mulher significa viver de regime, porque tem que ser magra, ou que ter unhas feitas é extremamente feminino. Na verdade, são apenas padrões impostos para as mulheres”, acredita Juliana. Por que não romper com a lógica, então?

Empoderamento, para ela, é a palavra que melhor define uma mulher de cabelos raspados. É a prova de que ser mulher vai além da vocação para se equilibrar em saltos doloridos e manter os cabelos compridos, como se não existisse uma alternativa mais prática. Existe, e ela se traduz no sonzinho delícia da máquina de cortar cabelo, ok?

Aqui tem mais fotos e minas para você se inspirar no rolê das cabeças raspadas. Só vem!

Inspiração para quem quer raspar o cabelo

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