‘Você não presta': 7 estereótipos racistas reforçados por Mallu Magalhães em clipe

João Vieira

Por

Atualizado em 22/05/2017

Mallu Magalhães e seus dançarinos negros

Youtube/Reprodução Mallu Magalhães e seus dançarinos negros

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Na última sexta-feira (19), Mallu Magalhães usou suas redes sociais para divulgar o clipe de Você Não Presta, primeiro single do novo álbum que deve ser lançado ainda em 2017.

Com um ritmo remetente ao samba, adicionando alguns elementos de estilos de matriz africana, como kuduro e afro-house, Mallu desfila seus passos “exóticos” de dança ao lado de dançarinos majoritariamente negros, todos descamisados e com a pele “besuntada” com o que parece ser (ou deveria ser) suor.

Os “convidados” mostram seu talento enquanto bailarinos, com o clipe utilizando-se deles para meio que criar um ar de festa clandestina em um prédio abandonado, a qual Mallu convida todo mundo, menos você, porque você não presta.

O clipe se tornou alvo de polêmica nas redes sociais, com integrantes da comunidade negra com grande relevância na comunicação questionando a forma como a cantora utilizou a “cota de negros” nas filmagens. Nós também encontramos alguns elementos que precisam ser discutidos.

1. O corpo besuntado

(foto: Youtube/Reprodução)

(foto: Youtube/Reprodução)

Besuntar o corpo de negros é uma das práticas clássicas e mais silenciosamente violentas da comercialização de escravos durante o período em que isso era legalizado. Naquele tempo, negros vindos da África eram besuntados em banha para parecerem mais dispostos, saudáveis, disfarçando, assim, os maus tratos físicos de suas viagens forçadas em navios negreiros.

Assim como Mallu.

Em seu clipe, a cantora mostra dançarinos brilhantes como frangos de padaria, exaltando neles um ar de “selvageria” que, de acordo com a própria, demonstra sua nova atitude enquanto artista.

2. A jaula 

(foto: Youtube/Reprodução)

(foto: Youtube/Reprodução)

Por uma razão difícil de compreender, em dado momento do clipe, Mallu Magalhães “enjaula” seus dançarinos negros em um cômodo com grades e uma escada. Ali estão apenas eles, os negros, sem ela. Enquanto isso, Mallu canta: “eu convido todo mundo para a minha festa, só não convido você porque você não presta”.

A combinação infeliz – pra dizer o mínimo – se tornou um dos trechos mais criticados pela comunidade negra, uma vez que, além do histórico de escravidão, negros são enjaulados pelo poder público até hoje. Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), dos 622.202 mil presos brasileiros em 2016, 61,6% são negros.

3. O distanciamento de Mallu

(foto: Youtube/Reprodução)

(foto: Youtube/Reprodução)

A linguagem audiovisual de Você Não Presta deixa uma coisa clara: Mallu não faz parte do grupo de dançarinos negros que protagoniza as imagens. Ela, na verdade, se coloca como dona deles. Sempre à frente, a artista não tem nenhum contato físico com eles em momento algum e apenas por alguns segundos se senta ao lado de um deles.

4. A hipersexualização do corpo negro 

(foto: Youtube/Reprodução)

(foto: Youtube/Reprodução)

Uma das coisas mais evidentes em Você Não Presta é a diferença entre o look de Mallu e os de seus dançarinos. Suados, os negros estão vestidos de forma selvagem, sem camisa, com top e calças apertadas. Mallu Magalhães, no entanto, veste roupas mais fechadas, mostrando pouco de seu corpo e sem uma gota de suor.

Seria completamente diferente se ela estivesse com um visual equivalente.

A hipersexualização do corpo negro é histórica, desde os mitos fetichistas relacionados a órgãos genitais da raça, que tiveram surgimento na época em que escravizar negros sexualmente era comum, até produções como Sexo e as Negas, assinada por Miguel Falabella e exibida pela Globo em 2014.

Como uma jovem de classe média que sai escondida dos pais de seu apartamento no asfalto para curtir um baile no morro, Magalhães arrisca alguns passos de dança, mas deixa claro que não faz parte daquela comunidade.

5. Negros como objeto decorativo 

(foto: Youtube/Reprodução)

(foto: Youtube/Reprodução)

A falta de interação entre Mallu e os dançarinos negros faz com que eles ganhem uma função decorativa no clipe. A cantora parece utilizá-los para parecer cool, assim como a camiseta do Oscar de 2002 que veste em um dos takes. Para quem não sabe, essa edição se tornou histórica na Academia por premiar dois negros nas categorias de Melhor Ator e Melhor Atriz: Denzel Washington e Halle Berry.

Que mensagem ela quer passar com essa combinação?

6. Essa declaração 

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No material de divulgação enviado à imprensa, Mallu Magalhães diz que escolheu essa música como primeiro single “por uma necessidade e vontade de quebrar o vidro, do meu trabalho, da minha carreira e da minha imagem… colocar para fora uma energia de atitude, uma onda tão urbana como selvagem.”

A combinação de fatores nos faz perguntar: os negros representam essa selvageria?

Ora, não estão eles besuntados para parecerem mais ousados? Não estão com o corpo à mostra em diversas ocasiões e, acima de tudo, não foram eles enjaulados no clipe?

Ou seja… 

Mallu e sua camiseta do Oscar de 2002

Youtube/Reprodução Mallu e sua camiseta do Oscar de 2002

Mallu Magalhães, que jamais prestou qualquer apoio ao enfrentamento da comunidade negra contra a violência racial, tampouco deu tamanha visibilidade a negros em seus clipes anteriormente, parece tentar embarcar no crescimento da presença de pautas raciais na mídia, com o sucesso de personalidades como Djamila Ribeiro, Nátaly Neri, Taís Araújo e Lázaro Ramos.

A camiseta do Oscar, a relação “exótica” entre uma menina branca e um grupo de negros selvagens e a sua postura sempre à frente delas, porém, cria um ar de desconforto e profundo constrangimento para quem dessa raça faz parte.

Assista ao clipe:

11 mulheres negras que já foram vítimas de racismo

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Taís Araújo, Sheron Menezes, Rihanna, Ludmilla e outras outras artistas negras vítimas de ataques raciais

Taís Araújo, Sheron Menezes, Rihanna, Ludmilla e outras outras artistas negras vítimas de ataques raciais.

Créditos: Reprodução / Instagram

Preta Gil

Preta Gil mostrou em seu Facebook diversos ataques racistas que sofreu numa postagem publicada nesta segunda-feira (25). A cantora foi chamada de macaca, além de sofrer com vários xingamentos machistas.

Créditos: Reprodução/Instagram

Taís Araújo

Em outubro de 2015, seguidores entraram no Facebook da atriz e a atacaram com dizeres como "cabelo de esfregão" e "gorila de zoológico". Após os ataques, a hashtag #SomosTodosTaisAraujo bombou nos TTs mundiais.

Créditos: Reprodução / Instagram

Maria Júlia Coutinho

Na página do Jornal Nacional no Facebook, internautas ofenderam a raça da apresentadora e um deles se referiu à Maju como escrava: "Onde compro essa escrava? Na época, o caso gerou revolta nas redes sociais e William Bonner e Renata Vasconcellos saíram em defesa da jornalista.

Créditos: Reprodução / Instagram

Sheron Menezes

Nas redes sociais, a atriz foi atacada com comentários como "negona" e "escrava" e disse que tomaria providências contra os agressores.

Créditos: Reprodução / Instagram

Ludmilla

No Instagram, a cantora foi xingada de "macaca lixo" e respondeu que o seguidor deveria ser preso.

Créditos: Reprodução / Instagram

Cris Vianna

A atriz postou uma foto no Facebook e recebeu comentários do tipo "preta cabelo de bombril" e "ratazana africana".

Créditos: Reprodução / Instagram

Rihanna

Em 2011, uma editora de uma revista holandesa se referiu à Rihanna como "vadia negra" e pediu demissão após a repercussão do caso.

Créditos: Reprodução / Instagram

Amandla Stenberg

Pelo Twitter, a atriz que interpretou Rue em ‘Jogos Vorazes’ teve que ouvir que "estragou o filme por ser preta".

Créditos: Reprodução / Instagram

Oprah Winfrey

A apresentadora contou em uma entrevista que foi impedida de comprar uma bolsa de grife em uma loja de Zurique, na Suiça, porque a vendedora não a reconheceu e disse que ela não teria dinheiro para pagar pelo produto.

Créditos: Reprodução / Instagram

Halle Berry

A atriz revelou ao jornal Daily Mail que já foi chamada de "nigger" (termo pejorativo usado para pessoas negras) em Hollywood.

Créditos: Reprodução / Instagram

Mariah Carey

Durante a divulgação do filme 'O Mordomo da Casa Branca', no qual a cantora interpretou uma personagem que sofria preconceito, Mariah revelou que na infância tomou uma cuspida no rosto apenas pelo fato de ser negra.

Créditos: Reprodução / Instagram

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