Hipertensão, diabetes e maturidade: conheça riscos e possibilidades da gestação tardia

Giovanna Tavares

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Atualizado em 29/11/2016

Gestação tardia

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Se há algumas décadas era comum ouvir histórias e planos de mulheres que dariam à luz aos 20 anos, hoje fala-se, com menos ressalvas, no adiamento da maternidade. Diversos fatores, mudanças e possibilidades desenham os rumos da gestação tardia no Brasil e no mundo. Com alguns riscos a mais, em comparação a uma gestação até os 35 anos, engravidar com maturidade, planejamento e segurança aos 40 não é impossível ou simplesmente imprudente.

Conversamos com especialistas em reprodução humana e obstetrícia para entender o que muda na dinâmica de saúde da gestante que opta pela maternidade tardia e que cuidados são indispensáveis para garantir uma gravidez segura e feliz às mulheres acima de 40 anos. Vem saber mais!

Tendência mundial

O mito da maternidade persiste e acompanha a trajetória de mulheres no mundo inteiro. Falar, portanto, em uma vida sem filhos é tão complicado e problemático como negar a própria natureza. Você nasceu para ser mãe, como é capaz de rejeitar ou adiar a conquista mais importante da sua vida? Pois é, mas os tempos estão mudando, ainda bem. De acordo com Eduardo Motta, obstetra do Centro de Reprodução Humana do Hospital Santa Joana, a gestação tardia é uma tendência mundial.

A mudança está ligada à evolução do papel social da mulher, que não tem como prioridade os cuidados domésticos e familiares. Antes de pensar em filhos, elas querem conquistar o próprio espaço no mercado e na sociedade, decisão que naturalmente adia a conversa sobre bebês e fraldas com o parceiro. Apesar do termo “tardia”, a gestação a partir dos 35 anos é cada vez mais comum. Ter filhos aos 40 e 50 anos, porém, envolve riscos e cuidados muito específicos; a boa notícia é que a medicina também está acompanhando essa tendência e, consequentemente, mais preparada para enfrentar complicações durante a gestação tardia.

Abortamento

O aborto espontâneo é mais comum do que se imagina, principalmente no primeiro trimestre da gravidez. Entre gestantes de 20 a 30 anos, o risco é de 10 a 15%; entre mulheres a partir de 40 anos, as chances pulam para 30%. Uma série de fatores podem desencadear o abortamento, desde pouco líquido amniótico na placenta até a má divisão das células embrionárias. Os especialistas garantem que, de uma maneira geral, a natureza é a mais sábia das ciências. Por isso, o abortamento é explicado por alguma síndrome, anomalia ou complicação que se mostra incompatível com a vida.

Em gestações acima de 40 anos, o surgimento de problemas desse tipo é mais recorrente. Os óvulos, que têm a mesma idade cronológica da gestante, não são tão perfeitos como os seus antecessores de outras décadas. Eduardo Motta afirma que mulheres acima de 45 anos que se submetem ao procedimento de fertilização in vitro têm cerca de 99% de chances de desenvolver embriões com erros cromossômicos. “O problema não é a falta de óvulos, já que a mulher pode começar o processo da menopausa só aos 50 anos. A questão é a qualidade desses óvulos, algo que diminui com o passar dos anos”, explica.

Riscos para a mulher

É normal que alguns problemas de saúde apareçam com o tempo. No caso das gestantes, vale a mesma lógica. Além de complicações “tradicionais” da gravidez, mulheres que vivem uma gestação tardia estão mais sujeitas a problemas relacionados a hipertensão arterial e diabetes, quadros que podem ser agravados pela maternidade.  Geralmente, são condições e riscos que a gestante apresentava antes mesmo de ficar grávida, por conta da idade avançada. Detectar possíveis mudanças na pressão arterial e ganho de peso anormal são imprescindíveis para garantir uma gravidez segura para mamãe e bebê.

Riscos para o bebê

Estar atenta às alterações de saúde e sintomas desconhecidos é fundamental durante a gestação tardia. Qualquer complicação de saúde da gestante pode ser “transferida” ao bebê, que necessita das melhores condições para poder se desenvolver dentro do tempo apropriado, com força e saúde. Mulheres com mais de 40 anos, porém, podem ter alguma dificuldade para levar a gestação até o fim, já que o número de partos prematuros é um pouco maior nessa faixa etária – principalmente se a saúde da gestante estiver frágil ou em risco, por exemplo.

Especialistas reforçam, portanto, que essa gestante não pode abrir mão do exame de ultrassom já na 12ª semana de gestação. Nessa etapa, é possível identificar se o bebê está desenvolvendo alguma má formação, como problemas cardíacos ou na coluna. É nessa fase, aliás, que o médico consegue vislumbrar algum sinal de anomalia genética, como o caso da Síndrome de Down, caracterizada pela ausência do osso nasal.

Anomalias genéticas

Um dos temores mais comuns da gestação tardia, já na casa dos 35 anos, está no desenvolvimento de anomalias genéticas. Como explicamos anteriormente, os riscos são maiores entre mulheres maduras por conta do “envelhecimento” dos óvulos. Funciona da seguinte maneira: a cada ovulação, o corpo separa os melhores óvulos para a fecundação, ou seja, aqueles com mais chances de desenvolver um embrião sadio, sem quaisquer complicações. O jogo muda com o passar dos anos, naturalmente, já que sobram óvulos que foram “dispensados” em outras ovulações, por conta da baixa qualidade.

A Síndrome de Down, uma das anomalias genéticas mais conhecidas, é mais frequente entre gestantes com 40 anos. Aos 30, a chance de uma mulher ter um filho com Down é de 1 em 1000 crianças nascidas. Dez anos mais tarde, porém, a chance é de 1 em 100 – dez vezes maior. Ainda assim, especialistas explicam que a prevalência de bebês com o erro cromossômico não é tão alarmante como os números sugerem. “A chance dessa mulher ter um filho sem qualquer anomalia ainda é de 99%. Mesmo assim, é obrigatório fazer o exame (translucência nucal) até a 12ª semana de gestação”, observa Eduardo Motta.

Alternativas

Você já ouviu falar em “preservação social da fertilidade”? Segundo Renato Oliveira, ginecologista e obstetra da Clínica Criogênesis, esta é uma alternativa eficaz e segura para mulheres que planejam adiar a gestação. Trata-se do congelamento dos óvulos, procedimento que preserva as características do gameta feminino e possibilita uma gestação com menor risco de anomalias genéticas. Em outras palavras, o óvulo permanece com a idade em que foi congelado, como aos 30 anos, por exemplo.

O risco de abortamento também é menor, graças à qualidade dos óvulos congelados. Problemas de origem embrionária resolvidos, voltamos ao ponto que fala sobre a saúde da gestante, que não pode voltar no tempo. Apesar do risco embrionário ser menor, ela ainda pode desenvolver hipertensão e diabetes, por conta da idade avançada. Com o devido planejamento, porém, a gravidez tem tudo para transcorrer sem grandes problemas.

Cuidados essenciais

A frequência de consultas com o obstetra é maior durante a gestação tardia, já que estamos falando de uma gravidez com alguns riscos bem sérios. É fundamental que a gestante faça o acompanhamento do bebê a cada 15 ou 20 dias, pelo menos. Um bom pré-natal não evita o surgimento de complicações, mas dá pistas de onde e como tratá-las devidamente. A alimentação também precisa ser balanceada e equilibrada, já que o risco de diabetes é mais frequente nessa faixa etária. Exames de glicemia e tolerância à glicose devem estar presentes na rotina da gestante.

Em paralelo, é interessante que a mulher continue praticando alguma atividade física, com a devida orientação, obviamente. Tudo isso cria um cenário saudável e favorável ao nascimento do bebê, mesmo em meio a tantos medos, dúvidas e riscos. Ah, dormir bem também entra nessa lista, principalmente se lembrarmos da privação de sono que acompanha as mães no pós-parto. Melhor aproveitar, né?

Maturidade emocional

As complicações de saúde da gestação tardia podem ser trabalhadas e até evitadas com um bom acompanhamento médico. Porém, um aspecto não tão comentado sobre a gravidez entre mulheres mais maduras tem a ver justamente com o lado emocional, aquilo que o ultrassom não é capaz de revelar. Podemos dizer que esperar por um filho é planejá-lo, cuidar de tudo nos mínimos detalhes para que a transformação na dinâmica familiar não seja tão abrupta e traumatizante. Mulheres que se preparam para a gravidez têm maior maturidade emocional para encarar desafios inerentes à maternidade.

Por isso, o risco de desenvolver transtornos emocionais e psíquicos, como a depressão pós-parto, é menos frequente em gestações tardias. Muitas vezes, essa mulher de 40 anos ou mais se mostra mais preparada para a maternidade, já o filho não vem “de surpresa”. O choro do bebê não irá desesperá-la por completo, ao contrário de mães muito jovens e inseguras.

Além disso, a gestação tardia é uma escolha, não uma obrigação que, de repente, depende por completo da vida daquela mulher. Considere!

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