‘Meu filme vem na contramão de tudo’, diz diretor de Cine Holliúdy, que bateu média de Titanic

Redação

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Atualizado em 13/08/2013

“Meu filme vem na contramão de tudo: é cearense, de baixo orçamento e com legendas em português”, conta Halder Gomes, diretor de Cine Holliúdy, que estreou nessa sexta-feira em cidades do Ceará e foi fenômeno de bilheterias. Com apenas nove cópias, o filme teve audiência de 25 mil espectadores e uma média “impossível” de mais de 2500 pessoas por sala – ultrapassando a própria capacidade das salas e os números de Titanic, de 1998. Foi a décima maior bilheteria do fim de semana.

A produção é baseada no curta-metragem Cine Holiúdy – O Astista Contra o Caba do Mal, de 2004, que ganhou 42 prêmios. A partir dele, Halder (As Mães de Chico Xavier) inscreveu o projeto de longa-metragem no edital de filmes de baixo orçamento do Ministério da Cultura. Rodou em seis semanas, em diversas locações no Ceará, com R$ 1 milhão.

A trama gira em torno de Francisgleydisson (Edmilson Filho), um homem apaixonado por cinema que organiza exibições improvisadas de filmes em uma cidade no interior do Ceará, na década de 1970. Com referências à história do cinema e artes marciais, o filme se destaca ainda pelas legendas em português, que traduzem o “cearensês”.

Ainda sem previsão de estreia no eixo Rio-São Paulo, Cine Holliúdy chega primeiro às capitais do Norte e do Nordeste, distribuído pela Downtown Filmes. “Precisamos repensar a distribuição de filmes no país, entender que o Brasil é um país continental, com anseios e demandas regionais. O cinema precisa se posicionar de uma forma mais estudada com estratégias diferenciadas para o mesmo produto”, conclui Halder.

Virgula: Como surgiu a ideia de legendar um filme falado em português?

Halder Gomes: Dois cearenses falando com o outro, com tantas expressões idiomáticas e sotaque, beiram o dialeto. Vira quase outra língua. Quando fiz o curta, em 2004, brinquei com essa coisa da legenda. Distribuímos um glossário cearense e as pessoas se divertiram muito. Sabia que essa coisa da legenda poderia jogar contra [o filme], mas sabia que seria a favor porque fiz um grande laboratório com o curta em termos de mercado, de plateia. Sou formado em administração e marketing, sou observador e estudo o mercado. Quando disponibilizei o curta-metragem em locadoras no Ceará, em 2005, ele batia as locações de Matrix. Sabia que esse fenômeno poderia se repetir no cinema.

Virgula: Este processo de usar o curta como laboratório de um longa-metragem não é tão comum no mercado de cinema. Acredita que ele possa ser uma nova maneira de viabilizar projetos?

Halder Gomes: Existe em Hollywood um processo de filmar uma cena de um roteiro e apresentar uma ideia, conceito de estética para investidores. Em Los Angeles isso é normal. Aqui no Brasil, não. Quando fiz o curta, sabia que estava fazendo o recorte de algo maior que gostaria de contar. Teve um papel decisivo de avaliação. De onde eu queria posicionar, de estratégia.

Virgula: O filme tem orçamento de R$ 1 milhão, pouco comparado a grandes filmes de circuito nacional. Como fez pra tudo caber no budget?

Halder Gomes: Fui assistente de produção e administração sempre foi importante pra mim – logística, fazer meus orçamentos, maximizar meus recursos. Teoricamente é impossível, mas todos os meus filmes foram feitos na base do impossível. Você pode comprometer o filme se não tiver certeza do que está fazendo, nada pode dar errado.  Qualquer pessoa diria que precisaríamos de 3, 4 milhões de reais. Rodamos o filme em apenas seis semanas, são 40 personagens, muitas locações, uma pós-produção muito complexa. Muitos efeitos visuais – alguns que são propositalmente visíveis e outros que não. Tem um refinamento técnico que não causa estranheza ao espectador.  

Virgula: A indústria de cinema norte-americana tem sido criticada por produzir filmes com orçamentos cada vez maiores, de centenas de milhões de dólares. Desta forma, fica cada vez mais difícil obter lucro. Acha que o exemplo se aplica ao Brasil? É preciso rever a forma de fazer cinema?

Halder Gomes: Eu não posso falar pelos grandes estúdios. Eles têm aparatos diferentes dos meus. Quero colocar meu filme na tela. Preciso competir com filmes que tem orçamento de US$ 150 milhões. Tenho de vender meu ingresso pelo mesmo valor. Se você pensar, é uma disputa desigual. Só que eles não conhecem a minha plateia, não sabem os anseios latentes do público. Busco nichos de mercado e tento descobrir provocar uma demanda. O exibidor vende o ingresso. Se você colocar gente na porta, ele exibe teu filme. Eu tenho que provocar essa demanda. A prova disso é que, nessa sexta-feira, as exibições de filmes como Homem-Aranha ficaram lotadas porque não havia mais lugares nas sessões do meu filme. O pessoal de Hollywood fez a festa.  [risos]

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